27 de mar. de 2012
Ferrugem
O porto é o remanso do corpo,
e as ondas é o que me possui.
A cor que me pinta vai ressaltando
a tinta que corre na minha garganta.
Embebedo meus olhos
lânguidos e espertos de tanto
desejo que o meu útero
desperta, e que em mim sobejo...
Beijo a garrafa com os
lábios suados de vinho,
e deixo escorrer uma gota
pelas mãos até pingar minha ferrugem!
Fico tresloucada pela
gota gelada que afeta meu espinho,
e sinto cheiro de pétalas de flor
tatuando ninho...
Minha ferrugem não tem dor,
tem só ardor de estar sozinho.
Me lazera devagar, e me
queima sem ninguém por perto!
Essa coisa de estar só, não é o que anseio.
É que sou essa solidão
como a tinta que percorre os meus seios
nas noites em que devoro poesias!
25 de fev. de 2012
Tarde em Paris
Minhas mãos na seda
sede a dança em mesa.
Pego o borgonhês e
seco o vinho que acompanha a massa.
Duas taças, três taças,
e meu decote de freguesa
pra dois moços em outra mesa.
Vez outra uma garfada.
Meu ufanismo perigoso
encorpora meu pouso dos
dedos sobre os óculos.
E vejo turvo... será o álcool?
Cruzo as pernas, peço um café,
retiram os pratos, e me
desenho fina, num elegante
restaurante da esquina.
Cafeína, é nada!
Joguei o euro,
vesti meu casaco francês,
e ignorei a dor nos pés.
Na saída, procurei meu cigarro,
adiantei com um pigarro,
dei dois tragos e retirei meus
sapatos para dançar na neve.
Insânia, morfina, heroína?
Que nada!
é coisa fina, pois sou menina...
E só me deram um mês de vida.
18 de fev. de 2012
Cerrei olhos, serrei a endoderme.
Devo meus passos no ato
do alto pra pousar meu
pouso e repousar sorrindo
ao ver de longe você sumindo...
Tua presença pesava meu corpo,
corroía meu osso,
chorava meu pulso.
E o impulso era nada!
Eu amava um ser vestido
de carne, esculpido de dor.
Se era amor,
que amor arde?
Suei meu sangue nas veias
numa noite de inverno
com um simples hidróxido de
ferro, e serrei minha endoderme.
Quem disse que doi como o amor?
Doeu a dor de rasgar a epiderme,
e eu não sentia dor maior
que já me tinha.
De quem corre a minha alegria?
Da melancolia, desalento,
misantropia ou esmorecimento?
Fique atento... É tudo destreza
pra golpear a lua, pra lhe tomar
tempo enquanto aqui estou
nua, e chorando sangue pelos ventos...
A lama na lama
Um copo um prato um garfo...
Na porta da sala apenas um sapato velho,
um lençol, um cobertor e uma almofada.
E na beira da estrada um caminhoneiro.
No espelho uma rachadura.
No porta-retrato com alguém ao lado,
uma teia.
E aquele gato com Correntinha no pescoço,
comendo aquele almoço de dois dias.
Ao lado da mesa um barril.
No calendário da parede,
há dois meses naquele mês de Abril.
Lá fora um frio...
E aquele moço sem sentimento
chegando sempre às três.
Ele entra de surpresa,
fala com sua Duquesa
que toma banho sempre em cima da mesa.
Vai aprontar comida,
enche sua barriga,
e cochila na sua única poltrona sem poeira.
Um copo, um prato, um garfo...
No meio da ladeira vem vindo sem controle,
um homem sem cegueira.
Um ronco na salinha,
um relógio sem bateria,
um estrondo a luz do dia.
E aquele moço,
sem dinheiro e sem pescoço,
foi parar na cozinha.
Um copo, um prato, um garfo...
Continuará ali,
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