9 de nov. de 2011

Envelheço



O osso, o dorso, o calo.
Da pele da palma
a pluma!


Das mãos a fluir germes.
Geme, treme, 
coça!


Delas saem obras,
engenhos e prosas.
E a carne transgride a dor dolorosa.


O tempo machuca minha mão
que tende a eternizar
versos.


O osso, o dorso, as rugas. 
E eu ei Di Ser Piero da Vince
ou a barba que as células ressoam.



Teu sorriso idílico





Peguei um cinzel,
tinta e pincel para tua face esculpir.
Sua linha turva me fez hermético,
te fiz anjo.

Este langue que é teu corpo solto,
cheio de remanso,
parece sol da cor de osso.
Minha mente te canoniza.

Peguei tinta grossa e manchei minha camisa...
Fiz-te Mona lisa.
Pintei seus olhos anelando teus beijos,
esculpi teus lábios

desejando teus olhos vivos.
Segui tuas curvas mentalmente com
meus dedos meio canhestros,
e logo as cores alvacentas foram lhe dando forma...

Fiz teu sorriso meigo.
Imaginei teu corpo no meu leito,
e tua alma sempre repousando ali,
na minha galeria.

Deixei de ser ateu,
fiz-te fantasia,
mas tua voz sempre desfalecia em mim.
Só teus erros foi o suficiente

para deixar uma boa mácula,
mas mesmo assim fiz-te sobejar...
Dei-lhe flores,
e até amor eu soube dar.

E na tíbia luz do seu quadro pálido,
derramei tintas vermelhas e azuis...
Fiz você no céu, pintei estrelas. 
Você não pode aparecer das cores,

nem ser escrita no papel,
mas é inextinguível ao meu delírio
mais antigo quando me lembro do teu sorriso idílico
ao ressaltar do quadro novo!



Um final com reticências


Sim,
 ontem tomei café contigo,
 te vi sorri, fui teu peito afagado,
 fui teu amor arrebatado,
 fui amigo, fui bandido...

Sim,
 ontem deixei meus livros abertos,
 meu computador ligado,
 meu porta retrato virado,
 e uma xícara de café na mesinha do meu quarto...

Sim,
 ontem deixei minha camisa no banheiro,
 deixei seu batom pregado no espelho,
 e a toalha molhada jogada no sofá da sala...

Sim,
 eu sei que ontem deixei uns bilhetinhos na gaveta,
 que larguei a luz acesa,
 e várias mensagens na caixa postal...

Pensei... Sim,
 eu poderia ter dito que te amava,
 talvez tivesse tempo de te pedir desculpas,
 e secar teus olhos molhados no passado...

Poderia terminar o que não terminei;
 encarar o que nunca encarei;
 abraçar quem nunca abracei,
 e realizar sonhos que nunca realizei...

Ontem eu vivia contigo,
 ontem eu era vivo,
 e hoje sou só lembranças.
Antes eu era criança,
 jogava futebol, e pulava o muro do colégio.

Tive sonhos como qualquer outro,
 fui garoto, fui homem...
Agora sou fora do tempo,
 vivo num espaço intenso de estranhas percepções.


 Sim, ontem deixei a louça suja, não reguei as plantas
 murchas, e o quadro torto no corredor que tanto
 me era invisível permanecerá morto, caído, assim como
 eu que nem ao menos pude te dizer adeus.

Eu sei... Hoje seria o nosso dia,
íamos brincar nas águas quentes do litoral,
 íamos rolar na areia, e você minha sereia,
 seria pedida em casamento.

Eu sei... Íamos correr contra o vento, 
íamos andar junto ao tempo, talvez dois se tornasse ‘’um’’.
Mas como pode algo existir e o fim não fazer sentido?
É de deixar o coração partido.

Meu amigo...
Tenho que lhe dizer...
Ainda bem ser só poesia!



Nada edênico



Milhares de vezes fui o beijo iludido.
Milhares de vezes desiludi o amor...
Não fui judas,
fui amante da minha tez!

Comi a maçã do paraíso
e me despi posando nua pra lua
em tempestade!

Fui medusa, musa, oferenda de várias tendas,
e nenhum anjo cercou enfim!
Só a cara mal feita, o homem sujeito e,
Lúcifer sorrindo pra mim!

Já criei minha foice,
fingi ser a morte,
e não sobrevivi no Edem.

Já fui apontada,
amarrada,
humilhada,
das mãos que me sangraram pena...

Também já fui santa,
beatificada,
canonizada,
dentre os corpos de Sodoma e Gomorra.

Envenenaram minha alma,
vestiram-me Dalila, 
pintaram-me Eva,
e eu nem fui Madalena dos meus amores.

Sou apenas o baú dos ocultos;
Sou a voz que os assassinam;
Sou as palavras que transpassa
o amor.


Gastando minha sola da língua 
alheia, seguindo descalça
no chão da poesia.

Só assim me darei nome,
e enfim, me vestirei sozinha.