9 de jun. de 2012

Rosa secular



Meu papel guardado,
amante da poeira.
Vazio como minha
garganta seca.

É o seco secular
já morta de vida,
sem cor, sem tinta maculada.

Ela é filha da despetalada,
roubada no jardim
de Berlim.

Não é rosa malvada,
é lembrança guardada.
Antes bela, hoje apagada.

És herdeira perfumada,
carimbo do teu coração.
Guardei a pétala ferida de saudades
dolente e sofrida...





Apocalipse


Sim, eu vi sete caminhos
abandonados
de rios e lagos e um remo
a boiar sozinho

E os meus olhos vendo de perto
sombras de um deserto
Pássaros feridos, esperançosos
deleitando a céu aberto

De repente a penumbra
de longe repartia o clarão,
e das areias molhadas surgia
uma mulher que abraçava o moço d´água

Era a imperatriz comprometida
a virar lama sem saída
Dama marcada,
destruída!

Sim, eu vi quatro cavalos de guerra
a descer das nuvens
e um dos cavaleiros segurava um
rolo com sete selos

Os galopes relinchavam
trovoadas rasgando
a névoa da alvorada
e nenhum receio eu sentia

Eu vi do outro lado
da ponte Miguel
a derrubar Babilônia,
a grande!

Esguardei tudo de perto
em um casulo onde
não fugimos da linhagem velha
de uma pele a sete palmos da terra.

Sim, a profecia estava
a se cumprir
sobretarde, sorrateiro

Eu sorri
Não tive medo...
Sabia que estava pra chegar
uma era de paz e sossego!


3 de mai. de 2012

Himeneu


Quebre essa parede
e vem matar a sede
que bebo
com volúpia.

Tira esse véu
e deixa eu pôr o anel
que define o nosso amor
em núpcias.

Deixa os nós, os nus e os tais
serem reais. Concretamente,
deixa-me banhar nos sais
pelos quais te revolveu.

Quero ser teu,
quero ser teu,

na banheira,
nos quintais,
nos sonhos fatais.

Quero ser eu
suas digitais, pois depravado sou
e não vou morrer jamais
se me jurar uma noite de amor.

Vem, me abrace.
Quero ser eu
o que é teu, nem que seja
só plebeu... Me enlace!


2 de mai. de 2012

Traição


A transe não move fios da mente,
e vai congelando suas vistas,
desfilando suas pálpebras
em calda fervente.

Essa coisa que
lhe assassina subitamente
tão de repente, lhe apavora
nos segundos de tortura.

Ela, a dor
é como um parafuso
sendo desenroscado
do seu estômago, e se demora...

O ponteiro para,
o som se ampara,
o chão se abre rapidamente
e sua alma se escora.

A dor que dói não é dor que mente,
é atrocidade de certa gente transportando
poluição aos seus olhos perdidos sobre
o beijo traindo sua boca simultaneamente.